Indumentária de Mãe Bernadete é doada ao Museu Nacional

Indumentária de Mãe Bernadete é doada ao Museu Nacional

O Museu Nacional, no Rio de Janeiro, incorporou ao seu acervo uma indumentária de uso pessoal de Mãe Bernadete, ialorixá e líder da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares, em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador, Bahia. A peça é um vestido branco com detalhes em azul.

A doação foi realizada por Jurandy Pacífico dos Santos, filho de Mãe Bernadete, durante a terceira edição do evento Diálogos da Reconstrução, que teve como tema “Memórias, Saberes e Patrimônios Quilombolas no Museu Nacional”. O encontro ocorreu nesta semana na instituição, localizada no bairro de São Cristóvão, na Zona Norte do Rio de Janeiro.

Peça representa ancestralidade e resistência

Segundo o Museu Nacional, a iniciativa busca reconhecer e preservar as memórias, os saberes e as práticas das comunidades quilombolas como patrimônios vivos. A incorporação da roupa amplia a representação dessas histórias no acervo da instituição.

Indumentária de Mãe Bernadete é doada ao Museu Nacional
© Felipe Cohen/Projeto Museu Nacional Vive

Jurandy contou que foi consultado por representantes do museu sobre a possibilidade de doar uma peça pertencente à mãe. Ele escolheu a indumentária por considerar que ela representa muito mais do que uma roupa.

“A doação da indumentária não é apenas a doação de um objeto. Aquilo não se trata de um objeto. Se trata além disso. Se trata de ancestralidade. Se trata de uma mulher que dedicou 72 anos de sua vida para a defesa dos Direitos Humanos, dos quilombos e do território”, afirmou em entrevista à Agência Brasil.

Para o gestor cultural e líder do Quilombo Pitanga de Palmares, a presença da peça no Museu Nacional fortalece a cultura afro-brasileira e mantém viva a memória de um povo historicamente marcado pela violência e pela falta de reconhecimento. “Isso é um reconhecimento. É o resgate da memória, a permanência dessa memória e o empoderamento desse povo”, declarou.

Memória quilombola no acervo do Museu Nacional

Em texto enviado à Agência Brasil, Jurandy destacou que a doação permite que a história da Comunidade Quilombola de Pitanga de Palmares ultrapasse os limites de seu território. A indumentária passa a levar conhecimentos ancestrais e a identidade quilombola a um dos principais espaços de preservação científica, histórica e cultural do país.

Salvador (BA), 17.08.2024 - Evento na casa de Dona Bernadete. Foto: Alberto Lima/Divulgação
Salvador (BA), 17.08.2024 – Evento na casa de Dona Bernadete. Foto: Alberto Lima/Divulgação

De acordo com ele, a peça poderá contribuir para que futuras gerações, pesquisadores e visitantes conheçam não apenas a trajetória de Mãe Bernadete, mas também a história de resistência dos povos quilombolas e de outras comunidades tradicionais.

“Estamos compartilhando com o Brasil e com o mundo um pedaço da nossa história, da nossa ancestralidade e da luta de um povo que continua resistindo. A memória de Mãe Bernadete permanece viva, porque seu legado continua!”, afirmou.

Legado de Mãe Bernadete

Para os familiares, especialmente filhos, netos e demais descendentes, a entrega da roupa simboliza a continuidade de uma história que não terminou com a morte da líder quilombola. A peça preserva a memória de uma mulher negra, quilombola, ialorixá e defensora dos direitos humanos.

Mãe Bernadete
© Felipe Cohen/Projeto Museu Nacional Vive

Jurandy ressaltou que a trajetória da mãe foi marcada pela luta, pela resistência e pelo compromisso com sua comunidade. Nesse contexto, a indumentária deixa de ser apenas uma peça de vestuário e passa a representar identidade, espiritualidade, afeto e pertencimento.

Assassinato em 2023

Mãe Bernadete foi assassinada em 17 de agosto de 2023, no Quilombo Pitanga de Palmares, em Simões Filho, na Bahia. Bernadete foi assassinada dentro da casa onde estava com os netos.

A incorporação da indumentária ao Museu Nacional se soma às iniciativas de preservação da trajetória da ialorixá e de valorização da memória quilombola. O gesto da família transforma uma peça de uso pessoal em patrimônio de memória e em testemunho da resistência de sua comunidade.

Links e documentos citados

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br