Reflexões sobre os Dez Anos da Usina Hidrelétrica de Belo Monte

Aos 70 anos, Élio Alves da Silva revisita memórias que preferiria deixar para trás. O impacto da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte, localizada em Altamira, no estado do Pará, é uma marca indelével em sua vida. Em sua comunidade, Santo Antônio, em Vitória do Xingu, ele acompanhou a evolução do projeto desde os anos 1980, quando o governo brasileiro iniciou os Estudos de Inventário Hidrelétrico da Bacia do Rio Xingu para avaliar o potencial energético da região.

O Impacto da Usina na Comunidade

O projeto, que teve início na década de 1970, culminou com a inauguração oficial da usina em 5 de novembro de 2013. O empreendimento, que previa desviar 80% do fluxo do Rio Xingu, gerou controvérsias e resistência, especialmente entre os moradores locais. Élio recorda os dias em que a empresa Cenec, responsável pelo projeto, adentrou as matas, derrubando árvores e realizando explosões para verificar a viabilidade da barragem.

Mudanças na Vida dos Pescadores

O impacto na biodiversidade aquática foi profundo. Silva recorda que, antes da construção, o rio era rico em peixes como tucunaré, pacu e diversas espécies ornamentais. Com a intensificação das explosões e a degradação ambiental, a quantidade de peixes começou a diminuir drasticamente. Ele e outras 67 famílias foram forçados a deixar suas casas, com promessas de reassentamento que nunca se concretizaram, resultando em uma nova realidade de vulnerabilidade e dependência.

Desafios de Sustentabilidade

Sara Lima, moradora da comunidade de Belo Monte do Pontal, também vivenciou a transformação trazida pela usina. Embora sua família não tenha sido deslocada, as mudanças no ecossistema afetaram severamente sua capacidade de sustentar-se. Ela lembra com saudade do tempo em que o rio era uma fonte abundante de vida, agora substituído por uma realidade onde a busca por água potável se tornou um desafio e a dieta familiar se restringiu a alimentos limitados.

Voices of Resistance

No contexto do décimo aniversário da usina, uma série de organizações, incluindo a Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente e o Conselho Indigenista Missionário, publicaram uma carta aberta denunciando as violações dos direitos das comunidades indígenas e ribeirinhas ao longo do tempo. O documento destaca que, além da degradação ambiental, as secas extremas enfrentadas na Amazônia exacerbam as dificuldades já impostas pelas mudanças climáticas.

Reflexões Finais

A história de Élio e Sara exemplifica as complexas consequências da construção da Usina Hidrelétrica de Belo Monte. Embora a usina tenha sido idealizada como um símbolo de progresso e desenvolvimento, a realidade vivida por muitos na região reflete uma luta constante pela preservação de modos de vida tradicionais e pela resistência às adversidades impostas por grandes empreendimentos. O legado da usina é um convite à reflexão sobre as prioridades sociais e ambientais que devem ser consideradas em projetos futuros.

Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br