Flávio Dino determina que PF investigue possível interferência estrangeira nas eleições

Flávio Dino determina que PF investigue possível interferência estrangeira nas eleições

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal abra um inquérito para apurar uma possível interferência estrangeira no processo eleitoral brasileiro. A investigação deverá examinar, principalmente, suspeitas de financiamento oculto de campanha e de atuação coordenada de agentes sediados no exterior.

A decisão foi tomada após uma provocação do Partido dos Trabalhadores (PT), apresentada em uma arguição de descumprimento de preceito fundamental (ADPF) ajuizada pelo Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). O processo trata de temas relacionados à soberania nacional e à aplicação de leis estrangeiras no Brasil.

Investigação ficará sob supervisão do STF

Na decisão desta terça-feira (27), Dino avaliou que as informações apresentadas não deveriam tramitar dentro da ADPF, por tratarem de possíveis crimes e irregularidades que exigem apuração específica. Por isso, determinou a abertura de procedimentos próprios de investigação, sob supervisão do Supremo.

Flávio Dino determina que PF investigue possível interferência estrangeira nas eleições
© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Segundo o ministro, o conjunto de denúncias reforça uma preocupação já apontada pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) em relatório sobre desafios de inteligência para 2026. O documento indicou que haveria elevado incentivo para que atores externos, interessados em decisões políticas e econômicas do Brasil, tentassem interferir no processo eleitoral.

A referência feita na decisão está relacionada à preocupação levantada pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) sobre a atuação de agentes estrangeiros e os riscos para a soberania nacional.

Suspeitas de arrecadação e anúncios no exterior

Entre as informações citadas por Dino está a suspeita de que os executivos Tallis Gomes e Pedro Sang tenham atuado em nome da empresa Rockbridge Network para arrecadar recursos nos Estados Unidos destinados à campanha do candidato Flávio Bolsonaro.

Outra denúncia envolve a publicação remunerada de conteúdos relacionados à eleição presidencial brasileira por perfis sediados no exterior. As postagens apresentavam informações favoráveis à possibilidade de vitória de Flávio Bolsonaro na plataforma de apostas Polymarket, bloqueada no Brasil desde 2024.

Brasília (DF), 10/04/2023 - Fachada do ministério de Relações Exteriores.
© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Dino também mencionou uma representação apresentada ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) pelo candidato à Presidência Renan Santos, do partido Missão. O documento reúne exemplos de anúncios publicados por perfis estrangeiros, mas direcionados ao público brasileiro.

De acordo com a representação, haveria um padrão de publicações recorrentes, pagas e produzidas, em sua maioria, em português. O material sustenta que os conteúdos tinham como alvo os eleitores brasileiros e tratavam diretamente das eleições do país.

Meta é citada por falhas na integridade eleitoral

A decisão também menciona suspeitas relacionadas à atuação da Meta, empresa responsável por Facebook, Instagram e WhatsApp. O ministro citou relatório publicado em 22 de outubro pelo Comitê de Supervisão da companhia, que apontou falhas na garantia da integridade eleitoral.

Meta vai demitir mais de 11 mil funcionários
© Marcelo Camargo/Agência Brasil

Dino mencionou ainda preocupações apresentadas por observadores da Organização das Nações Unidas (ONU) que acompanharam as eleições brasileiras. O comunicado, publicado em 21 de outubro, descreveu diferenças e interrupções na distribuição de conteúdos políticos em plataformas da empresa.

Entre os pontos listados pelos observadores estão a interrupção temporária da conta de campanha de um candidato; diferenças no engajamento, nos conteúdos exibidos aos usuários, na contagem de visualizações e no alcance das publicações; além de restrições a postagens no Instagram.

A ONU também apontou diferenças entre os principais partidos na geração de imagens por inteligência artificial, nos resultados de busca em canais do WhatsApp, nos Stories de candidatos e na distribuição de conteúdos políticos. Segundo o comunicado, essas diferenças poderiam beneficiar a campanha de um candidato adversário.

Possível relação com terras raras

Outro ponto que deverá ser investigado é a acusação de que a exploração de terras raras em território brasileiro teria sido oferecida em troca de interferência no processo eleitoral.

Brasília - 04/10/2026 - O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, junto com outros ministros, durante entrevista coletiva para falar da apuração de 1 turno das eleições no Brasil. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil
Brasília – 04/10/2026 – O presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, junto com outros ministros, durante entrevista coletiva para falar da apuração de 1 turno das eleições no Brasil. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Dino afirmou ser necessário esclarecer se existe algum vínculo entre apoio eleitoral e interesses econômicos de agentes estrangeiros nas reservas brasileiras de terras raras e em outros minerais considerados críticos. A apuração da Polícia Federal deverá reunir elementos sobre eventual conexão entre ações políticas, financiamento externo e interesses na exploração mineral.

Apuração abrangerá diferentes frentes

Com a determinação, a investigação deverá analisar conjuntamente as suspeitas de financiamento internacional, a veiculação de publicidade política por perfis estrangeiros, a atuação de plataformas digitais e a possível oferta de recursos minerais em troca de influência eleitoral.

A decisão não apresenta conclusão definitiva sobre as denúncias. O objetivo do inquérito é verificar a autenticidade das informações, identificar os responsáveis por eventuais irregularidades e esclarecer se houve interferência externa organizada no processo eleitoral brasileiro.

Links e documentos citados

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br