Negacionismo impulsiona surto de sarampo nos EUA e aumenta risco para o Brasil

Negacionismo impulsiona surto de sarampo nos EUA e aumenta risco para o Brasil

O avanço de discursos antivacinação e mudanças recentes nas recomendações do governo dos Estados Unidos contribuíram para o pior surto de sarampo no país em mais de três décadas. Mais de 4,4 mil casos foram confirmados neste ano, com três mortes. Entre os infectados, 98% não estavam totalmente vacinados.

A situação preocupa autoridades brasileiras porque o aumento da circulação do vírus em outros países eleva o risco de importação de casos. Para Eder Gatti, diretor do Programa Nacional de Imunizações (PNI), os Estados Unidos atravessam um período de retrocessos que representa uma ameaça para todo o continente.

Discurso antivacina favorece avanço da doença

Gatti afirma que o governo norte-americano tem validado discursos negacionistas e é comandado por um secretário de Saúde declaradamente contrário às vacinas. Na avaliação dele, o descontrole do sarampo está diretamente relacionado à perda de confiança na imunização.

Negacionismo impulsiona surto de sarampo nos EUA e aumenta risco para o Brasil
© Paulo Pinto/Agencia Brasil

“Espero que o mundo não olhe isso como exemplo. Eles estão colhendo frutos. A vacina contra o sarampo é uma vacina de bloqueio. Quem se vacina não pega nem transmite”, disse o diretor do PNI.

O agravamento do cenário também foi acompanhado por medidas locais nos Estados Unidos. Nova York declarou estado de emergência por causa de um surto de sarampo.

Casos importados pressionam o Brasil

O Brasil registrou 61 casos de sarampo neste ano, a maioria com origem importada. Como não há transmissão sustentada da doença em território nacional desde 2024, o país continua certificado como área livre do sarampo. A manutenção desse status, porém, depende da capacidade de impedir que casos trazidos do exterior voltem a iniciar cadeias de transmissão.

Pessoa com sintomas de sarampo. Foto: OMS
Pessoa com sintomas de sarampo. Foto: OMS

O diretor do PNI lembra que o Brasil conquistou o certificado em 2016, mas perdeu a condição em 2019, após a reintrodução do vírus na Região Norte. A doença se espalhou pelo país e provocou um grande surto em São Paulo, que registrou 19 mil casos.

Em 2023, antes da reconquista do certificado, a cobertura da vacina tríplice viral no calendário básico infantil era de 88% na primeira dose e 66% na segunda. Em 2024, os índices subiram para 96% e 78%, respectivamente. As taxas preliminares deste ano são de 95% para a primeira dose e 80% para a segunda.

A Agência Brasil também informou que o Brasil intensificou as ações diante do avanço do sarampo nos Estados Unidos e nas Américas. Em São Paulo, três novos casos elevaram para 40 o total registrado no estado neste ano.

São Paulo (SP), 18/08/2026 - Posto de vacinação contra o Sarampo na Estação Metrô Tucuruvi em São Paulo. Fotos: Paulo Pinto/Agencia Brasil
© Paulo Pinto/Agencia Brasil

Mudanças nas recomendações geram perda de confiança

Em agosto, o governo dos Estados Unidos reduziu de 17 para 11 o número de imunizantes recomendados para todas as crianças. Também determinou que a vacina tríplice viral, usada desde a década de 1970 contra sarampo, caxumba e rubéola, fosse substituída por três imunizantes separados, administrados em ocasiões diferentes.

Juarez Cunha, diretor da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), afirma que as novas recomendações foram motivadas por questões políticas, não têm base científica e são inviáveis. Segundo ele, as vacinas individuais contra sarampo, caxumba e rubéola não são fabricadas há quase 20 anos.

Para Cunha, a mudança provoca confusão porque a Academia Americana de Pediatria continua recomendando a vacinação da mesma forma adotada anteriormente, enquanto um órgão governamental anuncia alterações. Ele ressalta que a confiança da população é essencial para o sucesso das campanhas de imunização.

Placa de alerta sobre o sarampo afixada na entrada do Cohen Children's Medical Center, em New Hyde Park, Nova York, EUA 14 de março de 2025 REUTERS/Shannon Stapleton
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Vacinação é essencial para manter o certificado

Apesar do contexto internacional, Eder Gatti avalia que o Brasil tem conseguido preservar a certificação por causa do trabalho coordenado entre o Ministério da Saúde, estados e municípios para elevar a cobertura vacinal e fortalecer a resposta às ocorrências.

O diretor alerta, no entanto, que a proteção precisa ser mantida. O sarampo pode causar mortes de crianças, abortos e complicações obstétricas, além de apresentar maior letalidade entre populações vulneráveis, incluindo indígenas e pessoas em situação de pobreza.

A manutenção de altas coberturas vacinais é, portanto, a principal barreira para bloquear a entrada e a disseminação do vírus no país. Em meio ao aumento de casos no exterior, a confiança nas vacinas e a continuidade das ações de vigilância permanecem decisivas para evitar que o Brasil volte a perder o status de área livre do sarampo.

Links e documentos citados

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br