No último sábado (25), a 24ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) celebrou o Dia Internacional da Mulher Negra Latino-Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra com a participação da renomada ativista e pesquisadora Angela Davis. O evento, realizado no Sesc Caborê, foi gratuito e atraiu diversos participantes interessados em ouvir as reflexões de Davis sobre temas urgentes como racismo, gentrificação e a importância da cultura.
Reflexões sobre a História e Cultura
Durante sua fala, Angela Davis destacou a relevância histórica da cidade de Paraty, lembrando a presença dos ancestrais que desempenharam um papel crucial durante a era da escravidão. A ativista enfatizou a conexão cultural do movimento negro, afirmando que 'há algo sobre a natureza da música, da arte e da literatura que nos permite alcançar dimensões que não são acessíveis de outro modo'. Essa perspectiva ressalta a importância da cultura como ferramenta de resistência e afirmação.
Denúncia de Gentrificação e Racismo Ambiental
Davis não hesitou em abordar questões contemporâneas, como a gentrificação e o racismo ambiental que afetam Paraty. Ela alertou para o impacto da valorização imobiliária que expulsa moradores de suas comunidades, ressaltando que 'os jovens estão preocupados com o meio ambiente e sentem que não têm futuro'. A ativista destacou a necessidade de criar um espaço de diálogo e escuta, permitindo que as vozes locais sejam ouvidas e respeitadas.
Reconhecimento e Homenagens
Angela expressou sua satisfação em participar do evento, lamentando a ausência do laureado com o Nobel de Literatura, Wole Soyinka, por motivos de saúde. Ela também fez uma homenagem à escritora Conceição Evaristo, presente na plateia, reconhecendo sua obra como fundamental e comparando-a a ícones como Nina Simone e Toni Morrison. Davis enfatizou a importância da 'escrevivência', um conceito criado por Evaristo, que defende a necessidade de as pessoas negras contarem suas próprias histórias.
Internacionalismo e Solidariedade
A ativista compartilhou suas experiências pessoais, mencionando sua trajetória na França e sua descoberta da luta argelina. Para ela, a busca por igualdade e liberdade não se limitou às fronteiras francesas, mas se expandiu para um entendimento mais profundo de solidariedade internacional. Davis citou Beatriz Nascimento, ressaltando a importância da frase 'eu sou atlântica' como um sentimento de pertencimento a uma comunidade global.
Legado de Lélia Gonzalez
A ativista também fez referência a Lélia Gonzalez, uma figura central nos debates sobre raça, gênero e classe no Brasil. Ao expressar sua admiração por Gonzalez, Davis afirmou que seu trabalho continua a inspirar novas gerações, ressaltando a importância de suas contribuições para a luta por igualdade e justiça social.
Conclusão
A participação de Angela Davis na Flip 2023 não apenas celebrou a cultura negra, mas também lançou luz sobre questões sociais prementes que ainda desafiam a sociedade contemporânea. Seu discurso ressoou profundamente, incentivando todos a refletirem sobre a importância da história, da arte e da luta por justiça. O evento se destacou como um marco de resistência e um convite à solidariedade entre os povos.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br
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