Eliana Alves Cruz questiona ausência de autoras negras entre vencedoras do Jabuti

Eliana Alves Cruz questiona ausência de autoras negras entre vencedoras do Jabuti

A escritora, jornalista e roteirista Eliana Alves Cruz questiona o reconhecimento tardio de autoras negras pelo Prêmio Jabuti. Primeira mulher negra a vencer na categoria Romance, ela considera que a surpresa não deveria estar em sua conquista, mas no fato de isso ter ocorrido apenas na 68ª edição da premiação.

A entrevista integra a cobertura de Cultura da Agência Brasil. Para Eliana, nomes como Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo e Ana Maria Gonçalves já poderiam ter recebido esse reconhecimento ao longo da história do prêmio.

Da infância ao jornalismo

Eliana conta que desejava ser escritora desde os 11 anos. Um diário mantido naquela época registra a frase: “Gostaria de ser escritora”. A vocação foi estimulada dentro de casa pelo pai e pelas avós, que tinham o hábito de contar histórias.

Apesar do desejo, ela escolheu cursar Comunicação e Jornalismo e ingressou no mercado de trabalho por acreditar que seria difícil viver da escrita no Brasil. Durante mais de duas décadas, atuou na área esportiva e como assessora de comunicação da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos.

A rotina profissional era intensa, com trabalho contínuo inclusive aos fins de semana. Segundo a escritora, foram mais de 20 anos em uma jornada que ela resume como “7 por 0”, e não “6 por 1”.

Do adoecimento à literatura

Em 2009 e 2010, Eliana adoeceu em consequência do ritmo exaustivo de trabalho, que hoje identifica como burnout. O período a levou a decidir que começaria a fazer aquilo que sempre quis: escrever.

Foi então que iniciou as pesquisas para Água de Barrela, romance inspirado na trajetória de sua própria família, descendente de africanos escravizados trazidos para o Brasil. A autora passou cerca de cinco anos e meio, ao longo de quase seis anos, pesquisando, entrevistando parentes e desenvolvendo o livro.

Eliana descreve o processo como uma forma de terapia, cura e passatempo. Depois de concluir a obra, em 2015, procurou uma editora, mas não conseguiu despertar interesse. A publicação ganhou impulso quando o romance foi inscrito no concurso da Fundação Cultural Palmares e venceu a primeira edição do Prêmio Literário Oliveira Silveira.

Reconhecimento no Jabuti

A premiação de 2015 fortaleceu a decisão de Eliana de seguir profissionalmente na literatura. Em 2022, ela recebeu o primeiro Jabuti, na categoria Contos, por A vestida.

Eliana Alves Cruz questiona ausência de autoras negras entre vencedoras do Jabuti
© Tomaz Silva/Agência Brasil

Em 2026, voltou a ser premiada com Meridiana, romance que acompanha uma família negra moradora de uma favela e sua busca por ascensão social. A obra também rendeu à autora o Prêmio Guimarães Rosa, da Academia Brasileira de Letras, em 2025, na categoria Ficção.

A conquista na categoria Romance consolidou um marco na história do Jabuti, mas também evidenciou, para a escritora, a demora da premiação em reconhecer a produção de mulheres negras. A crítica combina a celebração de sua trajetória com a cobrança por uma presença mais representativa no principal prêmio literário do país.

Escravidão e vida negra como eixos da obra

O racismo e a escravidão aparecem de forma recorrente nos livros de Eliana. Com O crime do Cais do Valongo, ela percebeu que começava a construir um projeto literário voltado à investigação da vida negra no Brasil.

Em Água de Barrela, a pesquisa familiar se transforma em narrativa sobre os efeitos da escravização e sobre a permanência das memórias de origem africana. Já em Meridiana, a autora aborda experiências contemporâneas de uma família negra e as estratégias usadas para superar barreiras sociais.

Atuação além dos livros

A trajetória de Eliana também passa pela televisão. Na interseção entre jornalismo e literatura, ela apresentou o programa Trilha de Letras, da TV Brasil, e afirma esperar que a produção volte à programação.

No próximo dia 17 de novembro, a escritora tomará posse como integrante da Academia Carioca de Letras, ampliando sua atuação institucional no campo literário.

Uma escrita construída com memória e persistência

A história de Eliana Alves Cruz reúne uma vocação identificada na infância, décadas de trabalho jornalístico, o impacto de um adoecimento e a reconstrução profissional por meio da literatura. O reconhecimento obtido nos últimos anos fortalece sua posição no cenário cultural, enquanto suas declarações sobre o Jabuti mantêm em debate os critérios e os atrasos na valorização de autoras negras.

A Agência Brasil também disponibiliza conteúdos relacionados em outras plataformas, como a cobertura da Rádios EBC e a programação da TV Brasil.

Links e documentos citados

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br