Entidades alertam para riscos de boicotes e perseguições por posicionamento político

Entidades alertam para riscos de boicotes e perseguições por posicionamento político

A disseminação de listas que identificam empresas, comerciantes, profissionais liberais e trabalhadores com o objetivo de promover boicotes por causa de preferências políticas provocou reação de entidades representativas e órgãos ligados ao sistema de Justiça. Nas últimas semanas, organizações empresariais, seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Ministério Público do Trabalho (MPT) alertaram para os riscos jurídicos e democráticos de iniciativas que estimulam retaliações econômicas ou perseguições profissionais por razões político-partidárias.

A mobilização ocorre em meio ao aumento de relatos de constrangimento, discriminação e retaliações registrados depois das eleições de 2026. As entidades defendem o direito à liberdade de opinião, mas ressaltam que divergências políticas não podem justificar exposição pública, restrição de direitos ou prejuízos à atividade profissional.

Setor de bares e restaurantes é um dos mais afetados

O setor de bares e restaurantes está entre os mais atingidos pela circulação dessas listas. Por isso, a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) foi uma das primeiras entidades empresariais a se manifestar oficialmente sobre o tema, por meio da nota intitulada “Abrasel repudia listas de boicote e discurso de ódio após as eleições”.

A associação condenou a divulgação de relações que associam estabelecimentos a determinados posicionamentos políticos e incentivam consumidores a deixar de frequentá-los. A entidade lembrou que os empresários do setor têm diferentes convicções e afirmou que a diversidade de opiniões deve ser respeitada.

Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2026 – Os estudantes de direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), Simão Gabriel, Valentina Cruz e João Paulo Pimenta posam para fotografia em frente a universidade, no bairro do Ingá, em Niterói (RJ). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil
Rio de Janeiro (RJ), 29/10/2026 – Os estudantes de direito da Universidade Federal Fluminense (UFF), Simão Gabriel, Valentina Cruz e João Paulo Pimenta posam para fotografia em frente a universidade, no bairro do Ingá, em Niterói (RJ). Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Segundo a Abrasel, campanhas destinadas a prejudicar economicamente empresas e trabalhadores podem gerar responsabilização civil e judicial. Os efeitos, destacou a entidade, não atingem apenas os proprietários dos negócios, mas também os funcionários que dependem dessas atividades para obter renda.

A associação afirmou ainda que a divulgação das listas pode configurar ato ilícito e sujeitar os responsáveis a ações judiciais. Ao mesmo tempo, ressaltou que o consumidor é livre para escolher onde consumir, mas que nenhum estabelecimento pode discriminar ou se recusar a atender alguém por causa de seu posicionamento político ou ideológico.

OAB defende pluralidade de ideias

Entidades que representam a advocacia também reagiram. A OAB do Tocantins publicou, em suas redes sociais, uma nota de repúdio a listas que expõem empresas, profissionais e cidadãos em razão de suas preferências políticas.

A seccional ressaltou que a liberdade de manifestação e a pluralidade de ideias são pilares do Estado Democrático de Direito. Também advertiu que atos de discriminação ou constrangimento podem resultar em responsabilização legal.

São Paulo (SP), 19/10/2026 - Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil
São Paulo (SP), 19/10/2026 – Organizações da sociedade civil e movimentos sociais realizam protesto em frente à sede da Meta , na avenida Faria Lima,3732, para denunciar o que consideram interferência sistemática da big tech na eleição brasileira. Foto: Paulo Pinto/Agencia Brasil

Na avaliação da entidade, divergências eleitorais não podem ser usadas como justificativa para perseguição econômica, exposição pública ou restrição de direitos.

MPT questiona publicações nas redes sociais

O Ministério Público do Trabalho identificou situações em que plataformas digitais são utilizadas para pressionar empresários a vigiar, expor, deixar de contratar ou demitir funcionários por causa do voto.

Diante desse cenário, procuradores ingressaram com ação civil pública contra a Meta, empresa responsável por plataformas como Instagram, Facebook e Threads, para que esse tipo de publicação seja retirado do ar. De acordo com o MPT, depois do segundo turno das eleições, perfis passaram a convocar empregadores a adotar medidas contra trabalhadores em razão de suas escolhas eleitorais.

Carteira de trabalho digital.
© Rovena Rosa/Agência Brasil

O órgão afirmou que publicações de empresários, influenciadores e até parlamentares orientavam usuários a vasculhar as redes sociais de trabalhadores para descobrir em quem haviam votado e, caso a opção fosse diferente da preferência do empregador, demiti-los.

O procurador do trabalho Maurício de Mello informou que o MPT recebeu 1.140 denúncias nos três dias posteriores ao pleito. O volume de relatos reforçou a preocupação do órgão com o uso das redes sociais para disseminar práticas de assédio eleitoral e estimular retaliações no ambiente de trabalho.

Liberdade política não autoriza perseguição

As manifestações da Abrasel, da OAB e do MPT convergem na defesa de que a liberdade de escolha política deve ser preservada tanto nas relações de consumo quanto no mercado de trabalho. Para as entidades, o direito de expressar opiniões não se confunde com a autorização para constranger, discriminar, expor ou causar prejuízo a pessoas e negócios.

A orientação é que denúncias de assédio, discriminação e outras formas de retaliação sejam encaminhadas às instituições competentes. A reação das entidades busca conter a disseminação de listas e reforçar que conflitos políticos não devem ser transformados em instrumentos de perseguição econômica ou profissional.

Links e documentos citados

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br