A Batalha de Três Lagoas: Um Episódio Decisivo na Revolta Paulista de 1924
A Batalha de Três Lagoas, travada em 18 de agosto de 1924, representa um dos capítulos mais intensos e trágicos da Revolta Paulista de 1924, um movimento armado liderado por oficiais tenentistas contra o governo federal do presidente Artur Bernardes.
Essa batalha ocorreu na localidade de Campo Japonês, ao sul da cidade de Três Lagoas, no então estado de Mato Grosso (atual Mato Grosso do Sul), e marcou a tentativa frustrada dos revolucionários de expandir o levante para o interior do Brasil.
Liderados pelo tenente Juarez Távora, os revoltosos, vindos de São Paulo, enfrentaram as forças legalistas comandadas pelo coronel Malan d’Angrogne, resultando em uma derrota pesada que alterou o curso da revolução.
Essa ofensiva não foi apenas um confronto militar isolado, mas parte de um contexto maior de insatisfação com a República Oligárquica, conhecida como República Velha (1889-1930), marcada pela dominação das elites cafeicultoras de São Paulo e Minas Gerais, corrupção eleitoral e exclusão social.
Os tenentistas, jovens oficiais do Exército influenciados por ideais modernizadores e nacionalistas, buscavam reformas como o voto secreto, a moralização da administração pública e o fim do poder oligárquico.
A batalha em Três Lagoas simboliza o ponto de virada que obrigou os revoltosos a abandonar planos ambiciosos, como a criação de um “Estado Livre do Sul” ou “Brasilândia”, e a empreender uma retirada estratégica que culminaria na formação da Coluna Prestes.
Neste artigo, exploraremos em detalhes o contexto histórico, o prelúdio à batalha, as forças envolvidas, o desenrolar dos combates, as baixas, as consequências imediatas e o legado duradouro desse evento. Baseado em fontes históricas como relatos contemporâneos, análises acadêmicas e memórias de participantes, buscamos oferecer uma visão abrangente de um episódio muitas vezes esquecido na historiografia brasileira, mas fundamental para entender as raízes da Revolução de 1930.
A República Velha e o Surgimento do Tenentismo
Para compreender a Batalha de Três Lagoas, é essencial situá-la no panorama da República Velha, período caracterizado pela “política do café com leite”, onde as oligarquias de São Paulo (cafeicultura) e Minas Gerais (pecuária leiteira) alternavam-se no poder federal por meio de eleições fraudulentas e o “coronelismo”.
O presidente Artur Bernardes, eleito em 1922 em meio a acusações de fraude, enfrentava uma oposição crescente, agravada pela crise econômica pós-Primeira Guerra Mundial, inflação e descontentamento militar.
O tenentismo emergiu como um movimento de oficiais de baixa patente (tenentes e capitães) que criticavam a subordinação do Exército às oligarquias e defendiam uma nação mais justa e moderna. Inspirados por ideais positivistas e influenciados por eventos como a Revolta da Vacina (1904) e a Revolta da Chibata (1910), os tenentistas ganharam força com a Revolta dos 18 do Forte de Copacabana em 1922, quando um grupo de jovens oficiais marchou contra o governo, resultando em mortes heroicas que inspiraram futuras ações.
A Revolta Paulista de 1924, também conhecida como “Segundo 5 de Julho” ou “Revolução Esquecida”, eclodiu em 5 de julho de 1924 na capital paulista, exatamente dois anos após o levante no Rio de Janeiro. Liderada pelo general reformado Isidoro Dias Lopes, com apoio de figuras como Miguel Costa e Luís Carlos Prestes, a revolta contou com cerca de mil militares que ocuparam São Paulo por 23 dias.
Os revoltosos controlaram a cidade, estabelecendo um governo provisório que exigia a renúncia de Bernardes, voto secreto, reformas educacionais e fim da corrupção. No entanto, o governo federal respondeu com bombardeios aéreos e artilharia pesada, causando centenas de mortes civis e destruição em bairros operários como Mooca e Brás. Estima-se que mais de 500 civis morreram e milhares fugiram da cidade.
Diante da superioridade numérica das forças legalistas, os tenentistas decidiram retirar-se para o interior de São Paulo e, posteriormente, expandir o movimento para outros estados.
O sul de Mato Grosso foi escolhido como alvo estratégico devido à sua geografia defensável (rios como o Paraná e áreas de mata fechada), potencial econômico (erva-mate e pecuária) e presença de simpatizantes tenentistas entre a oficialidade local.
Os revoltosos sonhavam em estabelecer uma base ali, financiada por recursos regionais, para atrair adesões e organizar eleições livres, criando um “Estado Livre do Sul” que serviria de modelo para o resto do país.Fontes históricas, como o livro “A Revolução de 1924” de Neill Macaulay, destacam que o tenentismo no Mato Grosso tinha raízes profundas.
Desde 1922, oficiais como Clodoaldo da Fonseca e Joaquim Távora conspiravam na região, com exilados operando a partir do Paraguai e Bolívia. Levantes paralelos ocorreram em guarnições como Bela Vista e Corumbá, embora muitos fossem sufocados por sargentos legalistas.
A Circunscrição Militar de Mato Grosso, comandada inicialmente por João Nepomuceno da Costa, mobilizou unidades como o 16.º, 17.º e 18.º Batalhões de Caçadores, mas dependia de reservistas irregulares devido a atrasos logísticos.
Prelúdio à Batalha: Expedições e PreparativosA expansão para Mato Grosso começou logo após a evacuação de São Paulo em 28 de julho de 1924.
Os revoltosos, agora organizados em colunas, seguiram pela Estrada de Ferro Sorocabana e pela Noroeste do Brasil, visando cruzar o rio Paraná em direção a Três Lagoas. Essa cidade era pivotal: ponto de cruzamento ferroviário e fluvial, facilitava o controle de rotas para o interior.
A primeira expedição, em 8 de agosto, partiu de Porto Tibiriçá com cerca de 200 homens, mas foi repelida em Porto Independência pela Circunscrição Militar. Reforços chegaram para ambos os lados. Do lado legalista, o coronel Malan d’Angrogne assumiu o comando de um destacamento de 800 homens, incluindo a Força Pública de Minas Gerais e o 12.º Regimento de Infantaria, posicionando-se no Campo Japonês – uma área aberta propícia a defesas.
Os revoltosos, sob Juarez Távora (irmão de Joaquim Távora, outro líder tenentista), reuniram 570 homens, compostos pelo 3.º Batalhão, Coluna Amaral e elementos do 12.º Regimento de Infantaria, além de combatentes estrangeiros (principalmente alemães e poloneses recrutados em São Paulo).
Desembarcaram no Porto da Moeda em 17 de agosto.
O plano de Távora era dividir as forças: uma companhia atacaria pela esquerda, distraindo os legalistas, enquanto a tropa principal flanqueava pela direita para capturar a retaguarda em Porto Independência.No entanto, um erro de manobra – possivelmente devido à falta de reconhecimento do terreno – expôs o flanco direito dos revoltosos.
A região, com sua macega seca e influência japonesa (daí o nome “Campo Japonês”), era historicamente tenentista, mas os legalistas haviam consolidado posições. Relatos de participantes, como os de Diógenes Tourinho (comandante legalista no campo), descrevem a tensão pré-batalha, com escaramuças e emboscadas ao longo do rio Paraná.
Forças Envolvidas e ComandantesForças Revoltosas
Efetivo: Aproximadamente 570 homens.
Unidades: 3.º Batalhão Revolucionário, Coluna Amaral (homenagem a João Alberto Lins de Barros, líder tenentista), elementos do 12.º Regimento de Infantaria e uma companhia de combatentes estrangeiros (mercenários e voluntários europeus, treinados em táticas de choque).
Comandantes: Juarez Távora (líder geral da expedição, conhecido por sua audácia e posterior carreira política); outros oficiais como tenentes que haviam lutado em São Paulo.
Os revoltosos contavam com entusiasmo ideológico, mas sofriam com falta de suprimentos e fadiga após a campanha paulista.Forças LegalistasEfetivo: Cerca de 800 homens.
Unidades: Força Pública de Minas Gerais (companhias de infantaria experientes), 12.º Regimento de Infantaria e elementos da Coluna Amaral (ironicamente, homônima à revolucionária, mas leal ao governo).
Comandantes: Coronel Malan d’Angrogne (estrategista habil, promovido por sua vitória); Diógenes Tourinho (comandante tático no campo, responsável pela contraofensiva).
Os legalistas tinham superioridade numérica, metralhadoras pesadas e melhor posicionamento defensivo.Descrição da Batalha:
O Confronto SangrentoA batalha iniciou-se na manhã de 18 de agosto de 1924, quando a companhia direita dos revoltosos, por engano, avançou diretamente contra o Campo Japonês em vez de flanquear.
A primeira linha legalista, composta por uma companhia mineira, cedeu inicialmente a uma carga de baionetas dos tenentistas, que demonstraram bravura em combate corpo a corpo.No entanto, os legalistas reagiram rapidamente. Uma companhia do 12.º Regimento posicionou metralhadoras no flanco exposto dos atacantes, desencadeando um fogo cruzado devastador.
O pânico se instalou entre os revoltosos, agravado por um incêndio na macega seca, possivelmente iniciado por tiros ou deliberadamente. Muitos combatentes fugiram em desordem, deixando mortos e feridos no campo.
Os sobreviventes recuaram para Porto Tibiriçá, embarcando em barcos para escapar.Um oficial tenentista descreveu o combate como “o mais sangrento da revolução paulista”, com relatos de corpos carbonizados pelo fogo. A batalha durou poucas horas, mas sua intensidade marcou os participantes.
Análises posteriores, como as de Macaulay, criticam Távora por não realizar reconhecimento adequado, o que contribuiu para o erro fatal.(Ilustração de tropas tenentistas em retirada durante a Batalha de Três Lagoas, capturando o caos e o incêndio no campo.)
Baixas e Resultados Imediatos
As baixas foram desproporcionais, refletindo a superioridade tática legalista:Revoltosos: 24 mortos confirmados, 23 feridos e 67 prisioneiros; estimativas totais chegam a 50 mortos, 51 prisioneiros e muitos desaparecidos, com cadáveres carbonizados dificultando a contagem.
Legalistas: 4 mortos e 28 feridos; fontes mineiras relatam 3 mortos, 7 prisioneiros e 10 desaparecidos na Força Pública.
A vitória legalista frustrou a ambição dos tenentistas de se fixar em Mato Grosso. Os sobreviventes, incluindo Távora, retiraram-se para o Paraná, iniciando a Campanha do Paraná.
O destacamento de Malan perseguiu os fugitivos até Porto da Moeda, reforçando posições e ocupando Porto XV de Novembro em setembro de 1924.Consequências e o Caminho para a Coluna Prestes
A derrota em Três Lagoas obrigou os revoltosos a abandonar Mato Grosso, redirecionando esforços para o sul. No oeste do Paraná, uniram-se a rebeldes gaúchos (da Revolta de 1924 no Rio Grande do Sul), formando a Coluna Miguel Costa-Prestes em abril de 1925. Essa coluna percorreu milhares de quilômetros pelo interior brasileiro, promovendo guerrilha e conscientização popular, sem ser derrotada, até exilar-se na Bolívia em 1927.
No Mato Grosso, os legalistas consolidaram o controle: Malan assumiu o comando da Circunscrição Militar em outubro de 1924, substituindo Nepomuceno da Costa. Guaíra foi reocupada em 1925, mas os tenentistas cruzaram o Paraguai para continuar operações.
A batalha manchou a reputação de Távora temporariamente, mas ele emergiu como figura proeminente na Revolução de 1930.Em escala nacional, a Revolta Paulista e seus desdobramentos enfraqueceram a República Velha, pavimentando o caminho para a ascensão de Getúlio Vargas. Economicamente, o sul de Mato Grosso sofreu com interrupções no comércio fluvial e ferroviário.Legado:
Memória e Significância HistóricaA Batalha de Três Lagoas é lembrada como uma “batalha decisiva” da revolução, segundo Macaulay, destacando a resiliência tenentista apesar da derrota. Na cidade de Três Lagoas, o Cemitério do Soldado abriga túmulos de vítimas, incluindo o de José Carvalho de Lima, considerado “santo” localmente por milagres atribuídos.
O local foi tombado como patrimônio em 1970 e reformado em 2011.
Academicamente, obras como “A Revolta Paulista de 1924” de Glauco Carneiro e artigos em revistas como a do Instituto Geográfico e Histórico da Marinha analisam o evento como símbolo da luta por modernização. Em 2024, centenário da revolta, simpósios na USP e publicações como as do Opera Mundi resgataram sua memória, enfatizando o impacto social:
bombardeios em São Paulo deslocaram milhares, e o tenentismo influenciou o trabalhismo varguista.A batalha ilustra as contradições do tenentismo: idealismo reformista versus limitações militares. Hoje, serve como lembrete da volatilidade política brasileira e da importância de movimentos de base para mudanças duradouras.
Referências e Fontes AdicionaisEste artigo baseia-se principalmente na página da Wikipédia sobre a Batalha de Três Lagoas, complementada por fontes como Brasil Escola, Mundo Educação, Jornal da USP e análises de Neill Macaulay. Para aprofundamento, recomenda-se “Os Tenentes no Poder” de Hélio Silva e documentos do CPDOC-FGV
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Nota da Redação
Esse episódio marcou época em Três Lagoas-MS e ficou na história. O ex-prefeito e já saudoso José Lopes, proprietário da Rádio Difusora sempre lembrava desse episódio. Segundo ele, essa guerra marcou época na margem direita do Rio Paraná, precisamente na região da famosa Ilha Comprida.
“Eram corpos e mais corpos” dizia ele. Proprietário na região onde aconteceu esse triste e lamentável fato, Lopão como era conhecido não chegou a participar desse acontecimento, mas marcou pelo vestígio em sua propriedade que narrava com exatidão aquele acontecimento.
Ray Santos – Jornalista e radialista
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