As recentes cobranças de água realizadas pela concessionária Águas do Rio na comunidade da Maré têm gerado forte insatisfação entre os moradores, que relatam falta de transparência e valores exorbitantes nas faturas. Esse cenário não é isolado e reflete práticas semelhantes observadas em outras regiões atendidas pela empresa, como Japeri, um dos municípios mais empobrecidos do estado do Rio de Janeiro. A professora Ana Lucia de Britto, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), aponta que a política de cobrança da concessionária está voltada para uma lógica de expansão de receitas, que ultrapassa a simples prestação de serviços de água e esgoto.
A Logística de Cobrança e Seus Efeitos
Segundo Ana Lucia, a estrutura de tarifas imposta pela Águas do Rio inclui diversas taxas adicionais que encarecem ainda mais as contas. Taxas por corte de abastecimento, religação e juros por inadimplência foram mencionadas como práticas que elevam o custo final ao consumidor. "Esses custos adicionais são altíssimos e criam uma série de penduricalhos que aumentam o valor da conta de forma injusta", explica a professora.
Reclamações da Comunidade da Maré
Em março, os moradores da Maré receberam as primeiras contas de água após o anúncio de investimentos de R$ 120 milhões na comunidade. No entanto, os valores foram considerados exorbitantes, levando os residentes a buscarem ajuda das associações locais. Vilmar Gomes Crisóstomo, presidente da associação de moradores, relata que faturas que deveriam ser de R$ 5 chegaram a R$ 1.153, o que gerou grande preocupação. "Onde deveria vir uma conta de R$ 5, vieram valores de R$ 260, R$ 280 e até R$ 1.153", comenta.
Problemas de Identificação nas Faturas
Além dos altos valores, Vilmar também denunciou que muitas faturas chegaram sem a identificação do responsável, dificultando ainda mais o pagamento. "Houve casos de contas com a indicação de 'morador não cadastrado', o que levanta a questão: como pagar uma conta que não está em meu nome?". Ele orientou os moradores a não efetuarem pagamentos sem a devida identificação.
Respostas da Concessionária e Expectativas Futuras
Em resposta às reclamações, a concessionária reconheceu problemas em seu sistema e anunciou o cancelamento das cobranças irregulares. Na Maré, a instalação de hidrômetros e a conexão de esgoto à rede não serão cobradas, uma diferença em relação a outras localidades. Além disso, a empresa promete que o cadastro para a tarifa social será automático, garantindo uma tarifa reduzida de R$ 5 para os moradores, enquanto residências comerciais serão avaliadas separadamente.
Preocupações com a Inadimplência
Apesar das promessas, as preocupações de Vilmar persistem. Ele acredita que mesmo com a tarifa social, muitos moradores enfrentarão dificuldades financeiras para arcar com as cobranças. "Aqui, as pessoas não têm R$ 1 para comprar pão para seus filhos e netos, imagine R$ 60 para a conta de água", destaca o presidente. Ele teme que a situação leve muitos a ficarem com o nome negativado.
Desafios em Japeri
A situação em Japeri também é alarmante, onde denúncias de cobranças abusivas levaram a Defensoria Pública do Estado do Rio de Janeiro a solicitar uma investigação. A pesquisa realizada pela UFRJ, sob a orientação de Ana Lucia, revelou que os usuários do Cadastro Único, incluindo idosos e analfabetos, têm enfrentado dificuldades extremas para acessar serviços básicos de água.
Conclusão: Necessidade de Intervenção
Diante das dificuldades enfrentadas pelas comunidades da Maré e Japeri, fica evidente a necessidade de uma intervenção mais significativa por parte das autoridades. A implementação de subsídios estaduais, por exemplo, pode ser uma solução viável para mitigar o impacto das tarifas sobre as populações mais vulneráveis, especialmente considerando que essas comunidades são as que menos contribuíram para os problemas que enfrentam, como os efeitos das mudanças climáticas.
Fonte: https://agenciabrasil.ebc.com.br
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