Por Dr. Victor Sano*
Por décadas, consolidou-se no imaginário da gestão hospitalar a ideia de que o corpo clínico é o principal entrave à inovação tecnológica.
Estamos vivendo o que o estudo chama de “O Grande Desalinhamento”.
Enquanto 67% dos médicos já utilizam Inteligência Artificial (IA) diariamente em sua prática e 84% acreditam que ela os torna melhores profissionais, a gestão implementa tecnologias sem consultar os profissionais de saúde, diminuindo muitas vezes a aderência e o engajamento.
O paradoxo é claro: o médico está pronto para o futuro, mas a governança hospitalar parece presa a processos de avaliação que levam 18 meses para aprovar ferramentas que o corpo clínico já validou na linha de frente.
Esse atraso não é apenas uma questão de eficiência; é um risco à segurança de dados, uma vez que a falta de soluções oficiais empurra os profissionais para ferramentas de nível de consumidor.
A desconexão torna-se ainda mais evidente quando analisamos as prioridades. Enquanto empresas de tecnologia e diretores focam no lado mais “hypado” da IA — diagnósticos complexos e suporte à decisão clínica, o médico clama por alívio administrativo.
Para 65% dos profissionais, a prioridade número um é a eliminação da documentação manual.
Eles querem que a IA cuide dos cliques inúteis e da burocracia para que possam, finalmente, restaurar a “Arte da Medicina”: o contato visual, a intuição e a conexão humana que os sistemas de prontuário eletrônico ajudaram a destruir. Há, contudo, um temor legítimo.
30% dos médicos temem que a IA seja “armada” por administradores e fontes pagadoras para priorizar o lucro e o volume de pacientes em detrimento do cuidado e da autonomia clínica.
Existe o medo jurídico: ser processado se usar uma IA que erra, ou ser processado por não usar uma IA que teria evitado o erro.
Para que a saúde realmente avance, o modelo de governança precisa mudar. A tecnologia deve ser focada no médico e não nas instituições. Isso significa dar ao corpo clínico influência real na escolha das ferramentas — algo que 71% dos médicos sentem não ter hoje, segundo o estudo publicado pela offcall empresa especializada em orientar os profissionais nas áreas de finanças e qualidade de vida.
A IA não vai substituir o médico; 87% dos profissionais rejeitam essa ideia.
Pelo contrário, ela tem o potencial de salvar a profissão do burnout, que é um estado de exaustão física, emocional e mental causado por estresse frequente causado pelo trabalho.
Mas, para isso, as organizações precisam parar de impor ferramentas de cima para baixo e começar a ouvir quem realmente está ao lado do leito, o médico.
O futuro da medicina exige tecnologia de ponta, mas sua alma ainda depende da autonomia de quem a pratica.
*Dr. Victor Sano é radio-oncologista com atuação na Oncomed-MT, Professor Universitário na Univag e Mestre em Educação em Saúde.
Maria Clara Lima
Assessoria de Imprensa
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