Saudade e memória emocionam visitantes no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília

Saudade e memória emocionam visitantes no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília

O Cemitério Campo da Esperança, em Brasília, recebeu visitantes nesta segunda-feira, 2 de novembro, Dia de Finados. Entre flores, orações e produtos de limpeza, familiares foram ao local para cuidar dos túmulos e homenagear pessoas que morreram, mantendo rituais que atravessam gerações.

Ritual de 32 anos mantém viva a lembrança da família

Gorete Nascimento, de 71 anos, saiu de casa antes das 7h para cumprir uma tradição iniciada há 32 anos. Moradora de Cidade Ocidental, município goiano situado a 47 quilômetros de Brasília, ela levou flores e materiais de limpeza para cuidar do mármore das sepulturas onde estão enterrados seus pais e três irmãs.

Enquanto mostrava fotografias dos familiares, Gorete contava a história de cada um. Ao falar de Angelita, lembrou que a irmã completaria 86 anos no próximo dia 6 de novembro. A escolha do verbo no futuro expressa a dificuldade de despedida: Angelita morreu no início da pandemia, e Gorete sente que não conseguiu se despedir adequadamente.

Saudade e memória emocionam visitantes no Cemitério Campo da Esperança, em Brasília
© Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil

“Venho aqui sempre no dia de finados e também no aniversário de cada um porque sinto muita saudade deles. E para homenagear minha irmã, que também nunca deixava de vir aqui nessa data”, explicou.

Flores, orações e momentos de reflexão

A área em que os familiares de Gorete estão enterrados é uma das mais antigas do cemitério, com túmulos altos e formatos variados. Em uma ala mais nova, os sogros de Neusa Maria Nora estão sepultados em espaços onde é permitida apenas uma pequena placa com nome e fotografia, acompanhada de um candelabro para velas.

Depois de rezar pelos sogros, Neusa sentou-se em um banco à sombra e permaneceu observando o movimento. Para ela, a visita ao cemitério também provoca uma reflexão sobre a igualdade diante da morte.

“Eu gosto de vir aqui e me lembrar que rico ou pobre, todos vamos terminar no mesmo lugar. Acho que as pessoas deveriam vir mais ao cemitério”, disse.

Brasília (DF), 31/10/2026 - Brasília (DF), 31/10/2026 - Família Marcia que deu entrevista  é uma das filhas do casal Foto: Clisciene Magalhães/Arquivo pessoal
Brasília (DF), 31/10/2026 – Brasília (DF), 31/10/2026 – Família Marcia que deu entrevista  é uma das filhas do casal Foto: Clisciene Magalhães/Arquivo pessoal

Marcelo Oliveira também levou flores para o pai. Ele contou que costuma visitar o cemitério várias vezes ao ano como uma maneira de interromper a rotina e permitir que as lembranças retornem. Naquele dia, foi acompanhado da mãe e de uma irmã. O irmão mais velho não conseguiu ir porque se emociona e prefere evitar a visita.

Uma tradição com raízes históricas

A celebração do Dia de Finados chegou ao Brasil com os portugueses católicos. A origem da data é atribuída ao monge beneditino Odilo de Cluny, da Abadia de Cluny, na França. Segundo a tradição, em 998 ele determinou que os fiéis rezassem pelas almas dos mortos em 2 de novembro, um dia depois da Festa de Todos os Santos.

Embora tenha origem católica, a data também é lembrada por cristãos protestantes e por praticantes de religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Nesses grupos, são realizados rituais entre 1º e 2 de novembro em homenagem aos ancestrais.

Brasília (DF), 26/05/2025 - Visitação ao cemitério Campo da Boa Esperança no Dia de Finados, em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil
Brasília (DF), 26/05/2025 – Visitação ao cemitério Campo da Boa Esperança no Dia de Finados, em Brasília. Foto: José Cruz/Agência Brasil

O Dia de Finados foi oficializado como feriado nacional em dezembro de 2002, por meio da Lei nº 10.607/2002, de autoria da então deputada federal Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM). A programação de feriados do mês pode ser consultada na reportagem Zumbi, Finados e Proclamação: confira feriados nacionais de novembro.

Memória e cuidado no Dia de Finados

As histórias dos visitantes mostram que a data vai além da ida ao cemitério. Para algumas famílias, o momento representa a manutenção de um compromisso anual; para outras, é uma oportunidade de lidar com a ausência, recordar trajetórias e expressar afeto por meio de gestos simples, como limpar uma lápide, levar flores ou fazer uma oração.

A discussão sobre a morte e as formas de despedida também é abordada na reportagem Finados: lei amplia olhar e sensibilidade para vontades antes da morte.

Links e documentos citados

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br