Ex-jogadoras da seleção incentivam meninas em escolas do Rio antes da Copa de 2027

Ex-jogadoras da seleção incentivam meninas em escolas do Rio antes da Copa de 2027

Ex-jogadoras da seleção brasileira de futebol participaram de uma atividade com alunas da rede pública do Rio de Janeiro para compartilhar experiências, combater o preconceito e estimular a prática esportiva entre meninas. A iniciativa marcou a abertura do programa Pioneiras nas Escolas, criado em preparação para a Copa do Mundo feminina de 2027, que terá o Brasil como sede.

A ação foi realizada na Escola Municipal Juan Antonio Samaranch, em Santa Teresa, na região central da cidade. Na tarde da última quarta-feira (21), o campo da unidade foi ocupado por quatro equipes femininas que disputaram um minitorneio, enquanto os meninos acompanharam as partidas da arquibancada.

Alunas ouviram relatos das ex-jogadoras

Antes dos jogos, mais de 100 estudantes participaram de um encontro no auditório da escola com Marisa Pires, Maria Lúcia Lima e Marilza Martins, conhecidas no futebol como Caju, Fia e Pelezinha. As alunas fizeram perguntas, ouviram histórias da carreira das atletas e tiraram fotos com as convidadas.

As ex-jogadoras também falaram sobre as dificuldades enfrentadas ao longo da trajetória, especialmente o machismo e o preconceito. Elas chegaram à seleção brasileira poucos anos depois de o futebol deixar de ser proibido para mulheres no país.

Ex-jogadoras da seleção incentivam meninas em escolas do Rio antes da Copa de 2027
© Fernando Frazão/Agência Brasil

Uma trajetória marcada por restrições

Entre 1941 e 1979, a prática do futebol por mulheres era vetada com base no Decreto-Lei nº 3.199, que restringia a participação feminina em esportes considerados incompatíveis com a natureza das mulheres. O esporte foi liberado em 1979, mas só recebeu regulamentação quatro anos depois, em 1983.

A primeira seleção brasileira feminina disputou uma competição experimental em 1988, na China. Três anos depois, o país participou da primeira Copa do Mundo feminina, também realizada em território chinês. A modalidade estreou nos Jogos Olímpicos em 1996, em Atlanta, nos Estados Unidos.

A história surpreendeu a estudante Nicoly Melo, de 12 anos. Ao saber que meninas haviam sido impedidas de jogar, ela perguntou: “Por que não podiam?”, demonstrando incredulidade diante da antiga proibição.

Finalistas à categoria goleira do Prêmio TV Brasil Petrobras Para Elas - Carlinha (São Paulo), Yanne (bahia), SandY (América-MG), Finalistas, prêmio, Para Elas - 2026
© Fernando Frazão/Agência Brasil

Ex-atletas relembram o preconceito

A ex-jogadora Fia, de 62 anos, contou que enfrentava o machismo confiando na própria habilidade. “Sempre joguei com menino. Tinha talento. Não queria saber de machismo”, relatou às alunas.

Fia permaneceu cinco anos na seleção brasileira, foi tricampeã continental e disputou a primeira Copa do Mundo e a primeira Olimpíada da modalidade.

Caju, ex-zagueira de 60 anos, integrou a seleção entre 1988 e 1999. No período, participou de 43 partidas e acumulou 34 vitórias. Ao responder sobre os maiores absurdos que ouviu, lembrou das provocações feitas por torcedores durante os jogos.

“Vários torcedores diziam que mulher não servia para jogar futebol”, recordou. Segundo Caju, os ataques serviam como estímulo para que as atletas demonstrassem sua capacidade. “Aquelas palavras mexiam com nosso ego, e a gente queria, mais e mais, mostrar que mulher sabe jogar futebol”, completou. Atualmente, ela atua como árbitra.

Quito - 16-10-2026 - Libertadores Feminina: Cruzeiro resiste à altitude e vence na estreia. Foto ; Gustavo Martins/Cruzeiro
© Fernando Frazão/Agência Brasil

Programa relaciona esporte e educação

O Pioneiras nas Escolas é coordenado por Duda Luizelli, também ex-jogadora da seleção brasileira. Ela defendeu ainda o Internacional, de Porto Alegre, além dos italianos Milan e Verona. Para Duda, o projeto deve incentivar as meninas a acreditarem em seu potencial, sem deixar os estudos em segundo plano.

“O estudo é muito importante porque, mesmo quem for ser atleta, jogadora de futebol, de vôlei, de basquete, terá uma carreira muito curta. Com 38, 39 anos, acabou a nossa carreira e nós temos que dar uma continuidade”, afirmou a bicampeã sul-americana.

A Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro é parceira da iniciativa. Desde 2012, a Escola Municipal Juan Antonio Samaranch é classificada como Ginásio Experimental Olímpico (GEO), modelo de ensino integral que combina a formação escolar com o incentivo à prática esportiva.

14/10/2026 - Brasil abre 2 a 0, mas cede a igualdade diante de 30 mil torcedores Foto: Luciana Vermell/CBF
14/10/2026 – Brasil abre 2 a 0, mas cede a igualdade diante de 30 mil torcedores Foto: Luciana Vermell/CBF

A unidade atende cerca de 600 estudantes de 11 a 15 anos e conta, além dos professores, com treinadores de 19 modalidades. De acordo com a prefeitura, o projeto dos GEOs foi criado durante a preparação para os Jogos Olímpicos Rio 2016 e representa um legado daquele evento. Atualmente, a cidade tem 12 ginásios desse tipo.

Rio se prepara para a Copa do Mundo de 2027

A coordenadora de Projetos Integradores da Secretaria Municipal de Educação, Caroline Guedes, afirmou que o programa está ligado à preparação do Rio de Janeiro para receber partidas da Copa do Mundo feminina de 2027. A competição será realizada entre junho e julho, e a capital fluminense será uma das oito cidades-sedes.

A proposta é aproveitar a proximidade do torneio para ampliar o contato das estudantes com referências femininas do futebol e fortalecer a presença das meninas nos espaços esportivos e educacionais. A iniciativa se soma a outras ações relacionadas ao futebol feminino acompanhadas na editoria de Esportes.

Com relatos sobre superação, participação em competições históricas e enfrentamento ao preconceito, as ex-jogadoras buscaram mostrar às alunas que a evolução do futebol feminino também depende de oportunidades concretas, incentivo e acesso à educação.

Links e documentos citados

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br